O coração que devolveu a coroa ao rei

No segundo andar  da Torre do Templo, em Paris, um menino órfão de 10 anos perdia suas forças em uma cama da prisão. Era agosto e provavelmente o sol brilhava, sua luz entrava pela janela. Alguns o chamavam de rei, outros de filho do traidor, porém ninguém lhe dava o titulo de inocente, e por isso nem a data em que seu coração pararia seria registrada, nem como e porquê. as batidas de seu peito enfraqueceram. Só saberiam que Luís Carlos estava morto.

 

 

 

 

 

  Luís Carlos nasceu no dia 27 de março de 1785, no palácio de Versalhes, sendo formalmente tratado como Delfim de Viennois, sendo o terceiro filho de Maria Antonieta, segundo herdeiro ao trono depois de seu irmão mais velho Luís José. Em seus poucos anos de vida, Luís Carlos não presenciou muitos dias de alegria em sua família. 

 

   Entre seus dias de brincadeiras sem muitas responsabilidades, Luís perdeu dois irmãos. Primeiramente a bebê princesa Sofia, que apenas com 1 ano de idade faleceu em 1787 após adoentar-se da varíola, que assolava as pessoas naquela época. A morte da pequena princesa deprimiu a rainha, entretanto ainda haveria uma situação pior. Em 1789 o herdeiro legítimo ao trono, Luís José, faleceu devido ao Mal de Pott (uma espécie de tuberculose extrapulmonar que atinge a coluna) mal diagnosticado, após um período em que sofreu com um tratamento equivocado, não suportou mais, morrendo no Castelo de Meudon. Seu velório foi uma complicação, não só pela perda do príncipe, mas pela falta de dinheiro para bancar as solenidades.

 

   Talvez Luís José realmente tenha descansado em paz, já que não teria que viver os últimos momentos de sua família, em especial de seu irmão mais novo. 

 

    Após a condenação de Luís XVI na guilhotina em 1792, os monarquistas declararam que Luís Carlos era o novo Luís XVII por direito. O garoto, além de ter que suportar a perda de seu pai, ainda foi separado de sua mãe e sua irmã para ser colocado em um cela isolada em que não receberia noticias de sua família pelos próximos anos. Os três anos em que viveria preso seria em péssimas condições para uma criança com idade entre 7 e 10 anos. Essas condições provavelmente foram responsáveis em piorar sua saúde, que já demonstrava ter sido contagiada pelo mesmo mal que seu irmão mais velho (provavelmente herança da ama de leite que ambos compartilharam quando bebês). Quando morreu em 1795 em decorrência dos fatores que vivia e a doença derradeira, faleceu em agosto, porém sem ter qualquer formalidade registrada de sua morte, ou onde foi enterrado, sequer identificado.

 

   Por conta das poucas informações que a população recebeu de como e quando foi sua morte, se fizeram boatos sobre isso, e principalmente apareceram falsos herdeiros do trono que alegavam ser Luís Carlos, e de que sua morte havia sido forjada com uma criança falsa e o verdadeiro príncipe ainda vivia. Entretanto o boato mais famoso e que se tornou um mistério por anos foi o caso de um coração dissecado por um médico que alegava ter feito a autopsia de um menino morto na Torre do Templo e que tinha certeza que pertencia ao herdeiro do trono, e por esse motivo o guardou e o preservou em uma vaso de cristal com álcool. Esse médico antes de morrer desejou que o coração fosse devolvido à família real, sendo entregue aos membros Bourbons que residiam na Espanha.

 

Porém ninguém havia certeza se aquele coração de fato era de Luís Carlos. O garoto permaneceria um morto indigente até 2004, 200 anos após sua morte. Os fragmentos do coração foram testados através do teste de ADN, comparando com fios de cabelo originais de Maria Antonieta e com DNA de membros sobreviventes da casa Habsburgo (o teste feito levou em consideração informações genéticas transmitidas pela mãe).Então, após tantos anos, se concluiu que o pequeno coração encontrado era de Luís Carlos, o que deu fim aos boatos  e suspeitas sobre a história, além de lhe devolver a coroa e o título de rei Luís XVII, postumamente. 

 

 Para aqueles que prefeririam acreditar que o príncipe fugiu e sobreviveu, tendo uma vida livre de todo o sofrimento, ou para os céticos que acham que aquele órgão preservado não poderia ter resistido tantos anos de fosse do delfim, a ciência botou um fim, bom para uns, ruim para outros, mas os fatos são mais reais e contundentes que escreveram uma nova página na história da monarquia e revolução francesas.

 

Atualmente o coração está enterrado na cripta real da Basílica de Saint-Denis em Paris, junto de seus pais e restante de sua família. 

 

 

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