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Trilogia Winternight - Folclore e história da Rússia

Títulos: "O Urso e o Rouxinol"/ "A Menina na Torre" / "O Inverno da Bruxa"

Autora: Katherine Arden

Classificação indicativa: Livre

Gênero: Fantasia



"Todas as vezes em que você escolhe um caminho, deve viver com a lembrança do outro, de uma vida relegada. decida o que acha melhor, um rumo ou outro. Cada um deles terá seu lado amargo e seu lado doce." - A Menina na Torre


Não sou o tipo de pessoa que lê continuações, mas algumas vezes, tem histórias que me atiçam a continuar até o último volume com o desfecho dos personagens. Foi o caso da trilogia Winternight, da autora Katherine Arden.


Antes, já tinha curiosidade de começar a leitura de o "O Urso e o Rouxinol", por saber que envolvia o folclore russo, que acho muito rico em contos e lendas interessantes de um país tão distante e frio. Aliás, a relação entre Inverno e Rússia em suas histórias fantásticas é muito intrínseca, o que também me atrai. Comprei o exemplar da primeira parte da história, sem saber que tinha continuação, e li no Brasil.


Me impressionei com a apresentação da Vasilisa, ou Vasya, como passa a ser chamada na narrativa, uma garota de uma família burguesa russa da época medieval, vivendo com seu pai, sua madrasta e irmãos mais velhos. A jovem garota cresce ouvindo lendas antes de dormir, mas não espera que sua própria vida se tornaria uma mistura de fantasia na realidade, ao descobrir que consegue ver e ouvir os seres mágicos de seu país, que agora com o fortalecimento da fé ortodoxa, estão fracos e esquecidos, mas ainda presentes nas casas, nas florestas e na neve da Rússia. Seus poderes herdados não demoram a lhe dar o rótulo de bruxa por um padre recém-chegado à vila dela.

Além disso, Vasya também descobre um trato estabelecido entre sua família e o Rei do Inverno, um deus chamado Morosko, que logo também vai ao encontro dela, assim como seu irmão gêmeo o deus do Caos, chamado de o Urso e Medved. O contato com estas duas figuras a obriga a fugir de casa para escapar de um julgamento e condenação dentro do próprio vilarejo. E esta relação inicial do místico e da religião que permeiam a jovem vida de Vasya é o que conta o primeiro livro.


O segundo, a "Menina na Torre", traz a busca de Vasya não apenas sobre sua sobrevivência após saber de sua essência mágica, mas também entender sua herança familiar - ela não é a primeira bruxa da família, digamos assim, sendo bisneta da figura Baba Yaga - e sua importância para mudar a relação deste universo ancestral da Rússia e o presentes religioso. Para isso, ela vai em direção à Moscou, encontrar sua irmã, uma princesa na Corte o grão-príncipe Dimitri, e seu irmão, um monge ortodoxo. Junto em sua caminhada, ela leva o cavalo Solovey, presente de Morosko, e também o padre Konstantin em seu encalço, incentivado pelo Urso. É a descoberta e amadurecimento da personagem, e também o traço de passado presente e futuro de Vasilisa.

Também é quando a narrativa ganha um tom mais real, afinal conseguimos mensurar a época de 1380, por conta da presença dos tártaros e mongóis em combate com os russos, uma situação real que o país de fato passou, e coloca também o embate religioso em pauta no meio da narrativa de Vasya, que além de enfrentar os rótulos de bruxa, também precisa se defender de inimigos estrangeiros mais fortes do que seus líderes nativos, em uma terra ainda separada por principados.


O terceiro livro "O Inverno da Bruxa" carrega os desfechos, depois que Vasya se entende como uma chave importante da relação de dois mundos - o pagão e o ortodoxo - da Rússia, buscando reuni-los para vencer os tártaros. Para isso, ela vai precisar fazer com o que Morosko, o rei do Inverno, e o Urso, o deus do Caos, se entendam em campo de batalha, independente da rixa e oposições (inverno e verão, vida e morte) dos irmãos gêmeos imortais. Além disso, precisa escolher entre defender a Rússia ou assumir sua posição de herdeira de Baba Yaga e amada do rei do Inverno.

A narrativa da batalha de Culicovo, que realmente aconteceu em 1380 na margem do rio Dom, é emocionante, e coloca um tom de fantasia sobre um acontecimento histórico para refletir a busca do equilíbrio entre crenças, e que culminaria no conceito dvoeveriye, de fé dupla, que perdurou na Rússia até a Revolução de 1917.


Bruxa, um rei do Inverno e um demônio do Caos são as figuras principais desta trilogia. Para mim, juntas, conseguem resumir perfeitamente a essência da Rússia desde o seu passado.


Devorei os livros - o primeiro fisicamente no Brasil, os outros dois em e-book em Paris - para acompanhar o crescimento de Vasya e sua relação com seu próprio país, bem como Morosko, que se torna um amante interessante em meio ao frio tão marcante da Rússia. Também gostei de tentar lembrar dos contos russos que li quando mencionados discretamente ou visivelmente durante a caminhada da personagem que, inclusive, leva o nome de uma princesa também presente no folclore russo - "Vasilisa, a Bela", que acaba se tornando empregada de Baba Yaga ao se perder na floresta. Ironicamente, a personagem de Arden não é descrita como bonita.


Ilustração do conto "Vasilisa, a Bela"do livro "Tesouros dos Contos de Fadas


O último livro me prendeu e quase chorei no final quando Vasilisa precisa entender até onde suas escolhas devem influenciar o futuro e quando deve deixar as coisas acontecerem sem sua interferência. Fiquei muito satisfeita com o encerramento da história e também na forma como o folclore russo ganha vida nesta narrativa, além da presença poderosa da figura feminina em seu país, herdando sua cultura e também traçando o futuro.

Com certeza vou querer os três livros em formato físico na minha estante! E indico a leitura para quem ama a cultura e o folclore do Leste Europeu que, entre seu inverno rigoroso, ainda resguarda contos maravilhosos com personagens fantásticos a serem descobertos.

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