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A Ásia na França - uma experiência além-mar

Em setembro de 2023 tive a oportunidade de vir para a França estudar a cultura Pop Coreana. E todos que souberam me perguntavam "mas por quê a França? Por quê não ir direto para a Coréia do Sul em si?". Bem, primeiramente, porque meu trabalho foca na recepção deste material cultural do ponto de vista do Ocidente, então não faria sentido ir direto na fonte.


Mas a experiência em Paris me mostrou que a relação Ásia-Europa é bem maior do que pensei, bem como mais complexa do que se imagina. Está presente antes mesmo das palavras orientalismo, estereótipos e preconceito definirem alguns pontos presentes destas influências - e infelizmente ainda hoje as encontramos nomeados devidamente.




Jardín de Séoul, Paris, França.


A cultura asiática fascinou os europeus desde o período do renascimento, com a rota da Seda e os interesses na Índia e China. Posteriormente, no século XVII e XVIII, Luís XIV traz comissariados chineses para Versalhes e encontramos pinturas barrocas representando este povo oriental. O exótico atrai e atiça curiosidade, bem como cobiça sobre as tecnologias e possibilidades que estas terras possuíam para os ocidentais.


É deste aproveitamento que os museus europeus, e em especial na França, se abarrotam na época da Guerra do Ópio. Os chamados "viajantes e colecionadores particulares", que na verdade eram magnatas e empresários, dispostos a pagar fortunas por peças únicas da história da península asiática, vendidas por povos em crise naquele momento. Os museus Guimet e Cernuschi, ambos levando o nome de seus fundadores, tem porcelanas chinesas que nem a China tem em seus próprios museus. O mesmo vale para outros países, como Coreia, Taiwan e Japão.


Os escritores e artistas franceses também não se afastam do fascínio: Victor Hugo criou uma sala de chá chinesa em seu apartamento em Paris, com pinturas e pratos de porcelana trazidos diretamente da China. O Japonismo, então, se nomeia e cria força na França, e nos anos 1900 as mulheres apreciavam o estilo que simulava e imitava os kimonos, em estampas e recortes da última moda da época.


Hoje a culinária ganha seu território: na capital francesa encontramos uma série de restaurantes coreanos, tailandeses, japoneses... porque na visão do europeu moderno, essas comidas são mais saudáveis, e na onda da alimentação balanceada, elas fazem sucesso. Os movimentos Pop como o K-Pop e o J-Pop também empurram a juventude para conhecer esses lugares, e consumir outras modalidades de produtos vendidos na Fnac e na Amazon.


Por fim, de forma extremamente resumida, o que percebi ao fim da viagem, além de coletar os dados e informações que criaram o capítulo da minha tese, que é longo demais para expor aqui, foi que a Ásia para o europeu, o francês mais especificamente, ainda é vista por uma lupa repleta de manchas de um colonialismo permanente, mas adaptável aos séculos, que se disfarça em admiração, mas estabelece o lugar do estrangeiro. A cultura asiática, assim como a latino-americana, africana e oriental, é vista como algo de fora do Ocidente - sim, senhoras e senhores, nós aqui da América não somos ocidentais - e por consequência, com uma cultura de segunda classe para o consumo do europeu. Ela é divertida, diferente, bonita, e só. Não é para levar a sério.


Entretanto, a Hallyu, ou Onda Pop Coreana, vem com força inundar o mundinho europeu, e faz a juventude consumir os álbuns de K-Pop, a culinária, os K-dramas, as maquiagens, e tantos outros produtos dessa indústria cultural. Os professores de estudos asiáticos precisarão mudar a forma como vêem a Ásia por bem ou por mal, ou seus alunos os ensinarão sua própria versão, contemporânea e atual, em meio ao poder das redes sociais de compartilhamento de informações. E para a frustração da França, o nacionalismo não será cultivado por essa geração jovem. Eles querem novidade, como sempre foi desejado desde o passado distante! E isso, meus caros, a Ásia entrega, porém agora, em uma posição de privilégio.


O jogo ficou interessante de se observar. Convido vocês a também olharem os próximos movimentos destes países asiáticos, bem como suas peças - Índia com Bollywood, Japão com os mangás e animês, China com o poder de mercado, Coreia com a Hallyu - no tabuleiro cultural do mundo. A disputa pela atenção mundial está se equilibrando e o Ocidente - Europa e Estados Unidos - não poderá mais negá-los como relevantes. Os tigres, enfim, rugem para todos ouvirem.


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